Na última segunda-feira a Moody''s cortou o rating da Grécia. É a segunda vez que o faz desde que foi decidido o empréstimo a Atenas. O episódio é apenas mais um, num conjunto de golpes que Irlanda e Grécia têm sofrido desde que recorreram à ajuda externa. Portugal, cujo futuro deve começar a ficar mais claro sexta-feira, na reunião dos governos da zona euro, devera trilhar o mesmo caminho.
Basta ver a evolução dos juros da dívida grega ou irlandesa (que no caso grego ontem bateram novo máximo, nos 12,6% a dez anos, estando em 9% no caso irlandês) desde que pediram ajuda para perceber aquilo que muitos analistas têm defendido: o resgate não serviu para acalmar a pressão dos mercados financeiros. No mercado secundário, os juros da dívida subiram para valores bastante mais elevados do que registavam antes da ajuda. Neste momento isso pouca diferença faz, já que Grécia e Irlanda não precisam de recorrer ao mercado, graças aos pacotes de ajuda. No entanto, em 2013 regressarão à forma de financiamento normal.
"As coisas não estabilizaram, nem estabilizarão. Os países periféricos dificilmente conseguirão encontrar uma forma de crescer e criar emprego", explica ao i João Rodrigues, investigador do CES (Centro de Estudos Sociais, da Universidade de Coimbra). "Os juros oferecidos pela Europa e FMI foram muito elevados e, mesmo com os programas de austeridade, os juros têm subido." Aliás, Grécia e Irlanda querem renegociar os termos do pacote de apoio.
Os números são impressionantes. Basta pensar que, mesmo que a Grécia faça tudo o que lhe é pedido, chegará a 2013 com uma dívida de 160% do PIB - o dobro do que Portugal tem agora. Em Portugal, o governo prevê que, apesar do esforço de austeridade, a dívida cresça de 82% para 87%. O que levanta a questão: para que servem estes resgates ligados a austeridade? "Estes países foram colocados perante uma escolha trágica, qualquer uma das opções era insatisfatória do ponto de vista económico e social", defende João Rodrigues. "Corre-se o risco de entrar num ciclo vicioso de austeridade e punição pelos mercados financeiros."
Claro que é fácil criticar depois de tomada a decisão. Nunca se saberá o que aconteceria à Grécia e Irlanda sem intervenção externa, podendo as consequências ser ainda mais graves. "Que outra hipótese tinham?", questiona Filipe Garcia, economista do IMF. "Sem estes programas a situação poderia ser muito pior." Já Fernando Ülrich, presidente do BPI, tinha realçado, na conferência sobre dívida pública, que estes países só recorreram ao fundo porque não tinham alternativa. Não se conseguiam financiar no mercado.
Mas os efeitos negativos do resgate não se esgotam na subida dos juros. Como se vê nas duas cronologias [ao lado] desde que aceitaram o plano, Irlanda e Grécia têm sido castigados pelas agências de rating. Os governos locais têm acusado as agências de irresponsabilidade e de ignorar os dados da execução orçamental.
E o impacto não termina aqui. Na semana passada, Ricardo Salgado mostrava-se preocupado com o impacto de um resgate a Portugal. Em concreto, o líder do BES referia que, depois de recorrerem ao fundo, os depósitos bancários começaram a cair. "Os depósitos nos bancos portugueses não têm parado de crescer, enquanto os depósitos dos gregos e Irlandeses estão a cair. Isto é o efeito perverso da intervenção, uma quebra de confiança", afirmou. Um cenário que se repetiria em Portugal, alerta o banqueiro.
Para João Cantiga Esteves, professor do ISEG, estes planos de intervenção são essencialmente "insuficientes" e incapazes de resolver os problemas estruturais de cada país. "Estes planos não vão pôr a economia a crescer", explica. "Não digo que sejam maus, mas talvez pudessem ter sido mais eficazes."
Portugal é o próximo? Bruxelas parece já ter percebido que estes resgates não têm as consequências desejadas, podendo estar mesmo contribuir para o contágio. A ordem agora é evitá-los. Esta semana poderemos ter alterações aos mecanismos de ajuda que sejam favoráveis a Lisboa - como a compra de dívida pelo fundo europeu - algo que Sócrates tem procurado garantir. No entanto, a longo prazo, a solução será mais complexa. E as reestruturações de dívida dificilmente são conhecidas por serem suaves.
Basta ver a evolução dos juros da dívida grega ou irlandesa (que no caso grego ontem bateram novo máximo, nos 12,6% a dez anos, estando em 9% no caso irlandês) desde que pediram ajuda para perceber aquilo que muitos analistas têm defendido: o resgate não serviu para acalmar a pressão dos mercados financeiros. No mercado secundário, os juros da dívida subiram para valores bastante mais elevados do que registavam antes da ajuda. Neste momento isso pouca diferença faz, já que Grécia e Irlanda não precisam de recorrer ao mercado, graças aos pacotes de ajuda. No entanto, em 2013 regressarão à forma de financiamento normal.
"As coisas não estabilizaram, nem estabilizarão. Os países periféricos dificilmente conseguirão encontrar uma forma de crescer e criar emprego", explica ao i João Rodrigues, investigador do CES (Centro de Estudos Sociais, da Universidade de Coimbra). "Os juros oferecidos pela Europa e FMI foram muito elevados e, mesmo com os programas de austeridade, os juros têm subido." Aliás, Grécia e Irlanda querem renegociar os termos do pacote de apoio.
Os números são impressionantes. Basta pensar que, mesmo que a Grécia faça tudo o que lhe é pedido, chegará a 2013 com uma dívida de 160% do PIB - o dobro do que Portugal tem agora. Em Portugal, o governo prevê que, apesar do esforço de austeridade, a dívida cresça de 82% para 87%. O que levanta a questão: para que servem estes resgates ligados a austeridade? "Estes países foram colocados perante uma escolha trágica, qualquer uma das opções era insatisfatória do ponto de vista económico e social", defende João Rodrigues. "Corre-se o risco de entrar num ciclo vicioso de austeridade e punição pelos mercados financeiros."
Claro que é fácil criticar depois de tomada a decisão. Nunca se saberá o que aconteceria à Grécia e Irlanda sem intervenção externa, podendo as consequências ser ainda mais graves. "Que outra hipótese tinham?", questiona Filipe Garcia, economista do IMF. "Sem estes programas a situação poderia ser muito pior." Já Fernando Ülrich, presidente do BPI, tinha realçado, na conferência sobre dívida pública, que estes países só recorreram ao fundo porque não tinham alternativa. Não se conseguiam financiar no mercado.
Mas os efeitos negativos do resgate não se esgotam na subida dos juros. Como se vê nas duas cronologias [ao lado] desde que aceitaram o plano, Irlanda e Grécia têm sido castigados pelas agências de rating. Os governos locais têm acusado as agências de irresponsabilidade e de ignorar os dados da execução orçamental.
E o impacto não termina aqui. Na semana passada, Ricardo Salgado mostrava-se preocupado com o impacto de um resgate a Portugal. Em concreto, o líder do BES referia que, depois de recorrerem ao fundo, os depósitos bancários começaram a cair. "Os depósitos nos bancos portugueses não têm parado de crescer, enquanto os depósitos dos gregos e Irlandeses estão a cair. Isto é o efeito perverso da intervenção, uma quebra de confiança", afirmou. Um cenário que se repetiria em Portugal, alerta o banqueiro.
Para João Cantiga Esteves, professor do ISEG, estes planos de intervenção são essencialmente "insuficientes" e incapazes de resolver os problemas estruturais de cada país. "Estes planos não vão pôr a economia a crescer", explica. "Não digo que sejam maus, mas talvez pudessem ter sido mais eficazes."
Portugal é o próximo? Bruxelas parece já ter percebido que estes resgates não têm as consequências desejadas, podendo estar mesmo contribuir para o contágio. A ordem agora é evitá-los. Esta semana poderemos ter alterações aos mecanismos de ajuda que sejam favoráveis a Lisboa - como a compra de dívida pelo fundo europeu - algo que Sócrates tem procurado garantir. No entanto, a longo prazo, a solução será mais complexa. E as reestruturações de dívida dificilmente são conhecidas por serem suaves.
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